Desperdício, Valor e Marketing

Não tem jeito, o negócio está em risco quando o valor agregado cai. Quem tem mais de trinta anos lembra das fitas de vídeo VHS. As marcas Philips, TDK e JVC eram bem conhecidas pelos consumidores que vivenciaram o ritual de reservar os filmes para o final de semana e devolvê-los na segunda-feira. Os filmes novos eram ansiosamente aguardados e normalmente demorava para obtê-los. Mas, com o tempo, a preferência dos consumidores migrou para as fitas VHS-C, depois para os DVDs e, finalmente, para o streaming, reduzindo drasticamente a demanda.

A alta produtividade da fabricante japonesa Funai Eletric, não foi suficiente para manter sua produção. Chegou a vender 15 milhões de aparelhos de vídeo cassete por ano. Parou de produzi-los em 2016. A vantagem competitiva era de custo (ou equivalentemente, de produtividade).

Analisando sob a perspectiva de valor agregado aos clientes, no início do ciclo de vida do produto, a vantagem de valor marcava a posição estratégica dos pioneiros. No composto de valor, o Marketing ocupou um papel central, porque o mesmo agrega valor ao definir os benefícios do produto, ao alinhar o produto com a demanda, promovê-lo, sugerir o preço adequado e cuidar do comportamento geográfico das vendas. A promoção de marketing divulgava as funcionalidades dos videocassetes, informava aos consumidores os pontos de vendas e de assistência técnica. Contudo, devido aos produtos substitutos, os fabricantes de videocassetes foram migrando da vantagem em valor para vantagem de produtividade (custo).

Continuaram com produtividade alta, mas os clientes não viam valopaintr algum no produto. Enfim, a demanda minguou e as fábricas fecharam.

Para fins de raciocínio, considerando que o produto não tivesse ficado totalmente obsoleto. Traçando um paralelo com o Sistema Lean, a situação inicial era de LIDERANÇA EM VALOR e EM CUSTO. Porque o valor percebido pelos clientes era alto e os custos eram baixos. 

Supondo aqui que a eliminação dos desperdícios tenha sido a causa dos custos baixos de produção e da alta produtividade, não bastaria eliminar os desperdícios para manter a vantagem competitiva. Quando o produto perde valor aos olhos dos clientes, a empresa pode estar próxima do fim.

Quando se mapeia o processo, salvo algum engano, o FOCO é na REDUÇÃO DE DESPERDÍCIOS. Na maioria das empresas, alguém está zelando pelo projeto do produto, pela gestão do ciclo de vida do produto e pelo Marketing. Talvez não dando ênfase nestes e nas suas conexões com o Lean. Parece que a prática lean deixa a desejar na agregação de valor do produto (exceto aquelas que executam o Desenvolvimento Lean de Produtos) e do MARKETING. O Marketing, que também agrega valor, ocupa uma posição secundária no Sistema Lean.

Admitamos, que o foco do sistema lean na eliminação dos desperdícios pode não dar a importância devida ao valor adicionado pelo produto e pelo marketing.

O Marketing deveria adquirir maior importância relativa nos Sistemas Lean, em relação aos aspectos operacionais, tais como o mapeamento de fluxo de valor e a redução de desperdícios?

Rogério Bañolas

01/09/2020.

 

Minha conversa com Taiichi Ohno

Minha conversa com Taiichi Ohno

Fui chamado por Taiichi Ohno. Diziam que o homem era brabo. Entrei na sala. Ele olhava meus rabiscos que estavam sobre a mesa dele. Confesso que me deu um calafrio.

*** SUPEROFERTA / SUBOFERTA / ESPERA / MOVIMENTAÇÃO / DEFEITOS / PROCESSO / PERDAS P ***

Ele perguntou sem levantar a cabeça e sem dar bom dia: “você diz que estas 7 perdas valem tanto para a Produção quanto para a Logística. Disparou: não me faça perder tempo! Por que você diz que PERDA POR MOVIMENTAÇÃO vale também para a logística?  Você diz que TRANSPORTE NÃO É PERDA.” Completou a frase com uma baforada de cigarro na minha cara.

Eu disse, com medo de ser xingado: Ohno san, é que…. quero dizer…. ãrrã… a perda por MOVIMENTAÇÃO é, por exemplo, quando um material é movido para frente e para trás entre postos de trabalho. Isso é uma PERDA POR MOVIMENTAÇÃO na PRODUÇÃO. Quando, do armazém em diante, um produto não está sendo movimentado em direção ao cliente, no momento que ele quer, é uma PERDA POR MOVIMENTAÇÃO. Na LOGÍSTICA, quando o produto é transportado em direção ao cliente, no momento certo, não existe perda por transporte !!!

Notei, constrangido, que eu tinha falado demais. Esperei alguns segundos que pareceram uma eternidade.

Ohno san olhou com irritação para mim. Falou seco, quase gritando: não entendo como você ousa criticar as bases da Toyota. Jogou outra baforada para cima de mim. “Por que acha que pode me desafiar? Eu sei o que é desperdício! Acha que pode mudar o nome dos desperdícios! Você pensa que renomear os desperdícios faz com que seja mais fácil eliminá-los”?

Nunca entendi que tipo de RESPEITO é esse, aos gritos.

Agora saia, disse o sensei. Completou, mal-humorado, apontando para meus rabiscos: espere por mim no armazém, para me mostrar as outras seis perdas.

Fiquei muito, muito feliz. Entendi que ele tinha aprovado minha visão sobre a PERDA POR MOVIMENTAÇÃO.

Acabou o dia e ele não apareceu. Não tive coragem de chamá-lo! Foi aí que eu entendi. Ohno não queria explicação. Queria ver. Sabia que eu não eliminaria seis perdas. Queria que eu eliminasse pelo menos um dos outros seis desperdícios. Uma semana depois ele me chamou no armazém. Mostrei a perda por suboferta, que a equipe da logística tinha diminuído. Depois de uma semana de trabalho, 99% dos embarques saiam completos.

A sensação foi estranha: nervosismo por causa dos outros cinco desperdícios que eu teria que eliminar. E certeza de que estava indo no caminho certo.

Até agora não sei se foi sonho ou pesadelo.

Fonte: http://www.prolean.com.br/nao-ha-8-perdas-parte-viii/

Rogério Garcia Bañolas

15/08/220